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j.a.heredia

Teu amor renova
O estuário

As coisas não foram feitas para dar certo

As coisas não foram feitas para dar certo disse um poeta. Então me pergunto para que foram feitas ? Bem acho que o simplesmente existirem conferem-lhes a legitimidade da qual nunca reclamaram. Mas, afinal quem ou o que foi feito para dar certo ? As coisas se embricam, se articulam, as vezes aparecem coherentes outras caóticas. Mas, isto depende do olhar que as contempla na sua infinita variedade. As coisas não foram feitas para dar certo. Ao contrário do empreendedor bem sucedido, do escritor consagrado ou do político eleito por uma quantidade enorme de votos. Êsses podem afirmar que deram certo, ou podem ainda reclamar que ficaram ainda bem aquém daquilo que realmente aspiravam. Dar certo supoe uma harmonia. Um encaixe perfeito. Isto conseguido fecha-se a página do livro e se pode ir dormir tranquilamente. Do que deu certo acho que não se fala mais. Ficou condenado à perda do interêsse. Por isso, sou seduzido pelo que deu errado. Não reclamo uma grande catástrofe, com alaridos e estrondos. Pode ser um pequeno erro que que bem poderia haver passado desapercebido. Mas, se as coisas não deram certo, o remédio é tentar corrigi-las para que o acerto seja exitoso. Mas, entre o êxito buscado e eventualmente proclamado, existe um parênteses, um hiato. Um vazio, ou caminho a ser percorrido. O que implica o gasto de uma energia que tem de ser prontamente convocada. Mas, como as coisas não foram feitas para dar certo o resultado conta pouco, o que evita a decepção e a amagura. Penso que se as coisas não foram feitas para dar certo, é porque o homem é incerto. E êle fundamentalmente projeta sobre as coisas, o próprio de sua idiossincrasia. Êsse dar errado é próprio de sua constituição. Inserto e incerto êle se move e percorrre um longo caminho feito de equívocos e de suspeitas de erros. Acho que se o homem não deu certo temos um desafio de buscas de soluções à serem procuradas. É essa procura que oferece sentido, sempre provisório e suscetível de mudar com o tempo e o lugar. Se as coisas não deram certo é porque somos provisorios e absolutamente não defintivos. Agora, estou começando a enxergar um pouco mais claro. O definitivo é o que deu certo. O acabado é aquilo que se conclui e depois reclama o descanço para usufruir do sentimento de satisfação. É aí que reside o horror. Acho até bom que não tenhamos dado certo. Isto porque neste caso usufruimos do prazer de tentar de novo. Tantas vezes quanto necessário nos pareça que o objetivo vale a pena.

As coisas não foram feitas para dar certo. Quem as fez e nos fez obrou com olhos voltados para o efêmero. Instalou-nos num provisorio que não termina em nós mesmos. Isto dito, e de uma maneira não conclusiva, penso que os que gostam de reformular o mundo tem um excelente material ao alcance das mãos. Mãos à obra e boa chance.


(Pôrto Alegre 2007)

Teu amor renova

Teu amor renova velhas penas
A ternura, a ira e também instiga
A emergência de emoções ingenuas
Que tanto seduz quanto castiga

No rosto a neve era um açoite
lâmina de seda rente à pele
E meu ser inteiro nesta noite
Vagueava revolto como um L

Pensei em ti Camões neste momento
tão igual à ti no sentimento
e perto de teu gênio sendo nada  

Quanto me magoa e me flagela
Ao lembrar-me oh ! bardo aquela
Tão triste e leda madrugada.

 

O Estuário Guaíba (Porto- Alegre)



Eu te revejo
Depois de tantos anos.

Espelho mudo
Em teu entorno de sombrias bordas
Que te enlaçam.

Majestoso e secreto
No teu silêncio.

Imóvel na aparência

Apenas, a proa da cidade
Invadiu a tua sonolência líquida
E languescente.

Espesso
No teu perfil
De juncos
Tu escureces

Enquanto a rosa vermelha
Do poente
Se entardece

Para afagar teu sono

Abandonando o dia
que esmoreçe.